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Arquivo Arte &
Cultura 100
anos efervescentes O Frevo faz 100 anos. Mas, o gênero já existe desde os meados do século XIX e tem sua origem na quadrilha, tango brasileiro, maxixe e polca. Já nos idos de 1860, era comum pelas ruas do Recife, em Pernambuco, o desfile de bandas militares ou civis e a palavra efervescência já era usada para designar a euforia do povo que se lançava atrás do cortejo. A escolha da data comemorativa, dia 9 de fevereiro, deve-se ao fato do termo Frevo aparecer pela primeira vez num artigo do Jornal Pequeno de Recife, atualmente, o Diário da Manhã, no ano de 1907. A matéria retratava com entusiasmo a manifestação popular que vinha alcançando cada vez mais notoriedade na capital pernambucana. O nome Frevo deriva-se das palavras ferver e efervescente, que popularmente são conhecidas como "frever" e "efrevescente". O Frevo lembra ainda confusão, rebuliço e agitação popular. Como o enigma do ovo ou a galinha não se sabe quem veio primeiro: o Frevo como gênero musical ou o Frevo como dança, que em Pernambuco chama-se passo. Até os meados do século XX, existia muita rivalidade entre as bandas e clubes carnavalescos que terminava, na maioria das vezes, em pancadaria com dezenas de feridos e até casos fatais. Os desfiles, então, contavam com a presença de capoeiristas brutamontes, verdadeiros acrobatas que munidos de pedaços de pau inibiam os mais briguentos e valentões. Para enganar a polícia, os capoeiristas, aos poucos, começaram a inventar passos, criando uma coreografia própria para acompanhar a "onda" dos cordões carnavalescos. Com o passar do tempo os cacetes e bengalas foram substituídos por sombrinhas coloridas. Hoje, o Frevo originário das ruas de Pernambuco
tomou o Brasil e o mundo. Muitos compositores da MPB, mesmo não
sendo pernambucanos, já flertaram com o gênero. A propagação
do Frevo como gênero musical é favorecida em muito pela sua
moderna harmonização e a constante evolução
nos passos da dança. O Frevo tem tantos passos quanto a criatividade
do passista permitir. Marcelo Candido Madeira Neste momento em que parlamentares e jornalistas
incentivam uma reação irracional contra os assassinos do
pequeno João Hélio, levantando até idéias
como a pena de morte, vale discutir como são construídos
os criminosos no Brasil. Correio Feminino, de Clarice Lispector, lançado
em 2006, é uma coletânea de textos publicados na imprensa
carioca, nas décadas de 50 e 60. Clarice, durante este período,
adotou pseudônimos sob os quais assinava colunas femininas. Não
são contos, não é literatura, nem romance. São
textos curtos, extremamente femininos. Não feministas. Por isso,
belos, com a delicadeza de quem fala da alma da mulher.
No filme de Mika Kaurismäki, uma co-produção entre Brasil, Suíça e Finlândia, o Choro, claro personagem principal, simplesmente rouba a cena. Brasileirinho exibe em comportado estilo boa música, bons músicos, informação e bons depoimentos. É uma bela apresentação para quem nunca foi a uma roda de Choro, para quem nunca ouviu um CD (ou disco mesmo) de Pixinguinha e cia. (Já que o dia do Choro é comemorado em 23 de abril, aniversário de Pixinguinha, não é preciso escolher entre os nomes dos diversos chorões, quem toca choro, para citar o mestre). Os depoimentos estão bem enquadrados, seguem um rítimo plano, nenhum é verdadeiramente emocionante. O estilo nos é apresentado com uma certa frieza, tendo como admiradores e seguidores em sua maioria músicos apaixonados pelo gênero. Uma exceção à este fato é a interpretação de Yamandú Costa interpretando "Carinhoso", de Pixinguinha e João de Barro, e que deixa a nossa emoção quase sem fôlego, com certeza um ponto alto do filme. Mas, não é preciso se revestir com a carapuça de grande crítico documental para absorver os diversos pecados encontrados na produção final deste gênero religiosamente fascinante. As discussões dos mais exigentes espectadores - ou minimamente quem já viveu uma roda de choro - ampliam nosso universo. Para alguns o diretor pecou na edição exibindo um formato bonzinho e catolicamente correto. Para outros a quebra está na produção impecável e artificial de cenas específicas para o documentário. Para o público conhecedor do estilo, a falta maior foi dos câmeras que poucas vezes sustentaram o virtuosismo e a simplicidade dos dedilhados. Enfim, para o público geral faltou emoção. Em artigos sobre o documentário. Moro no Brasil, produção anterior do diretor, algumas dessas pequenas falhas foram citadas, além de colocar Kaurismäki intencionado como uma espécie de Ry Cooder que quer redescobrir o Brasil para o mundo, como fez com a música cubana. Estamos ainda longe de encontrar o nosso Ry Cooder, que como músico, viveu e presenciou de corpo e a alma aquele gênero. A narração em off ajuda a costurar os depoimentos e apresentações dos músicos. Mais uma vez, para quem não conhece o Choro, explica, define, esclarece. Mas para quem já conhece, não apresenta muitos dados novos. Quanto à música e aos músicos: basta ouvir e se deliciar. Tem Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza, Yamandú, Elza Soares, Teresa Cristina, Pedro Miranda, Paulo Moura, Guinga, Ademilde Fonseca, Zezé Gonzaga, Marcos Suzano, Joel Nascimento, Silvério Pontes, Zé da Velha, Carlinhos Leite, Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, Daniel Spilmann, Umberto Araújo, Joel Nascimento, Fred Dantas, Edson Santos, Maurício Carrilho, Luciana Rabello e mais. Ótima música, imagens bonitas, vale conferir e sair saudosista do cinema: "Brasileirinho" está em Zurique, no Arthouse Piccadilly. Alice Peixoto e Anibal Ferrari
Deu no Wall Street Journal, de 17 e 18 de junho. O etanol, nosso popular álcool, está sendo proposto como a grande tacada dos Estados Unidos no mundo das energias renováveis. Eles estão cada vez mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, o que é grave, pois todo mundo conhece a instabilidade política dessa região. Isso acaba pesando no bolso dos consumidores porque o preço do petróleo nunca foi tão alto, obrigando novas atitudes na área energética. Apesar de não assinarem o Protocolo de Kyoto, é impressionante como boa parte da comunidade verde na terra do Tio Sam abraçou a causa, incluindo parte dos governos locais (estaduais e municipais) e do setor empresarial, que, voluntariamente, estão adotando medidas de controle de suas emissões. Exemplo disso é a criação da Chicago Climate Exchange, especializada na comercialização de créditos de carbono. As "vedetes" nos negócios verdes nos EUA têm sido programas de biocombustíveis. Já existem algumas experiências de adição de etanol à gasolina funcionando e também fala-se bastante em biodiesel. O etanol norte-americano é produzido principalmente a partir do milho e sua produção se concentra no Mid-West, exatamente onde está Chicago. Não é à toa que haja um súbito interesse pela experiência brasileira do carro a álcool, a ponto do artigo no Wall Street Journal começar de forma provocativa: "'Be like Brasil' have never been words to live by except perhaps in soccer or samba". Se for viável, essa solução irá permitir conciliar a insaciável demanda norte-americana por automóveis (basta ver o novo desenho da Disney, chamado simplesmente de... "Carros") com a redução do consumo de combustíveis fósseis, causa principal do aquecimento global. Por isso, tanto interesse no que parece ser o assunto do momento, que acaba também entusiasmando terras tupiniquins. A revista Exame, de 21 de junho, traz na capa "Etanol: A nova riqueza do Brasil" e, de recheio, logo nas primeiras páginas, a matéria "Etanol. O Mundo quer. O Brasil tem". Pois bem, parece que nos deparamos aí com a nova era dos combustíveis, e desta vez a iniciativa privada está investindo pesado na nova promessa. Considerando que a produção do etanol tem tudo para ser promissora, também existe a sorte de problemas como o atendimento a essa demanda mundial pelo produto e o aumento do desmatamento (aliás, pouquíssimo falado em todas as abordagens). Mais do que nunca cabe voltar um pouco o filme, e entender quais foram as razões para que o Pró-Álcool tivesse sido considerado por um bom tempo um malfadado programa governamental. Será que o patinho feio agora virou cisne? Pressão dos plantios Um problema que certamente virá à tona é a esperada pressão por mais terras de cultivo para a produção dos biocombustíveis. Dentro do agronegócio convivem empresários com responsabilidade social junto com segmentos que podem ser incluídos no que tem de mais atrasado no capitalismo brasileiro. Atualmente o setor sucroalcooleiro é liderado por empresas modernas, mas cabe sempre a questão: uma elevação da demanda internacional por álcool poderá encher de novo a bola dos "velhos" senhores de engenho, cuja mentalidade pouco evoluiu em termos de compromissos sociais e ambientais? Em uma conversa com Roberto Schaeffer, do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esses problemas ficaram claros. Uma simples conta ajuda a nos remeter à realidade. Se o Brasil tivesse a mesma frota de veículos dos EUA, que é de 180 milhões de carros, seria necessário expandir em 100% a área plantada no Brasil, só para o cultivo de cana. Ou seja, tudo seria transformado em canavial. Salta aos nossos olhos: inviável. Atualmente a frota mundial é de 750 milhões de veículos. No Brasil é de 20 milhões. Como atender toda essa demanda? Boa pergunta. O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao biodiesel. No papel, tudo é lindo, mas até que ponto temos garantias de que a biomassa necessária para sua elaboração será obtida de forma sustentável? O biodiesel pode ser feito a partir da soja. Vamos lá. O Brasil é um dos maiores produtores de soja. Todo ano, são contabilizadas toneladas de soja excedente, e isso acaba reduzindo o preço e o lucro do sojeiro. Agora, se esse excedente for canalizado para o biodiesel, a safra passa a ter um comprador certo. O biodiesel não seria então uma solução para a pressão dos produtores de soja para escoar a sobra não comercializada de grãos? Não podemos esquecer que tanto o etanol quanto o biodiesel não são obtidos por um passe de mágica. O processo de preparação da terra, plantio e colheita além do próprio processamento e distribuição do combustível envolvem consumo de diesel e emissão de poluentes. Não podemos aceitar trocar "seis por meia dúzia". Investimentos em hidrogênio Na Califórnia, Arnold Schwarzenegger parece estar usando todos aqueles músculos tão úteis nos filmes hollywodianos em investimentos em células de hidrogênio. O estado americano tem 35 milhões de habitantes e 24 milhões de veículos consumindo 16,4 bilhões de barris de gasolina e diesel por ano! A Califórnia ainda tem cinco das top 10 cidades americanas com maior nível de poluição do ar. Um guia pequeno, mas recheado de informações sobre as pesquisas em hidrogênio na Califórnia - o California Hydrogen and Fuel Cell Guide - mostra essas preocupações do governo, estudos de caso de empresas como BMW, Ford, GM, Nissan, Toyota, Siemens, DaimlerChrysler, e muitas outras, empenhadas em tornar as células de combustível uma realidade. Porém, operações em larga escala com veículos movidos a hidrogênio - um "exterminador de emissões do futuro" - continuam na ficção científica. Os principais problemas para esse tipo de energia continuam sendo a obtenção do hidrogênio e sua dificuldade de armazenamento, já que é um gás extremamente volátil. A forma convencional de obter hidrogênio é através da hidrólise, processo em que uma corrente elétrica separa a molécula de água em hidrogênio e oxigênio. Um programa em larga escala requer grande quantidade de energia para separar as moléculas, e pelo princípio da entropia acaba-se gastando mais energia útil (eletricidade) do que a que fica disponível para as células de combustível (hidrogênio). Voltamos a trocar "seis por meia dúzia"? Os Estados Unidos têm motivo de sobra para se preocupar com a qualidade do ar, emissões de gases de efeito estufa, preço do combustível... Os perigos do aquecimento global estão tornando as coisas mais fáceis para o lado verde, sem dúvida. Mas, lá no fundo, todos nós sabemos que o barril de petróleo a 75 dólares é que torna essa onda mais surfável. Infelizmente é a regra da sociedade. Mas, felizmente, apertou no bolso e alargou nas alternativas. Todas as energias alternativas e renováveis juntas
não supririam as projeções de padrão de consumo
mundial. A nossa grande tacada é que não devemos entrar
numa busca incansável de um novo padrão de energia e sim
mudar o nosso padrão de consumo. As tecnologias estão aí:
tem a solar, a eólica, a geotérmica, a das ondas e das marés,
a biomassa, o biogás, as pequenas centrais hidrelétricas.
Agora, nos resta saber quanto cada um está disposto a pagar por
isso. Fonte: www.oeco.com.br Carlos Eduardo Young é economista, professor de Economia do Meio Ambiente da UFRJ e Doutor em Economia pela University College London. Priscila Geha Steffen é paranaense, jornalista ambiental e apresentadora do programa Andante, sobre música brasileira. Desde o ano de 2000, quando lançou o contundente longa "Cronicamente Inviável", o diretor paranaense Sergio Bianchi mergulhou no universo do cinema nacional portando uma fina agulha com a qual teve a ousadia de enfiá-la com destreza nas feridas encobertas da sociedade brasileira. Sergio Bianchi tem em sua filmografia quatro curtas-metragens, um média e cinco longas e foram seus últimos trabalhos que expuseram-no como uma espécie de diretor "Maldito" que polemiza e critica a sociedade na qual vive. Mas foi por essa linha que estampa a hipocrisia do pensar e agir brasileiro que conquistou inúmeros fãs sempre ávidos pela próxima produção. Há quem diga que o papel do cinema é muito mais profundo que o simples entretenimento, que a transformação deveria ser a grande meta. Seguindo ou não esta meta, Bianchi conseguiu escancarar de forma objetiva e inteligente o conformismo e os equívocos alimentados por nós, ignorantes, na construção do nosso país e consequentemente de um mundo melhor sem sabermos para quem o construímos. "Quanto vale ou é por quilo?" (2004) é o mais recente trabalho do diretor que faz uma releitura da solidariedade através de números e estatísticas que surpreendem. Desmascara o trabalho de centenas de ONGs sociais mostrando que 'ser bom e solidário gera status e uma margem de lucro realmente satisfatória'. Entre este tema, Bianchi traça um paralelo entre os tempos da escravidão e os dias atuais com tamanho talento que coloca essa evolução mascarada de um país, hoje, democrático e livre, onde quem rege esta liberdade é a miséria imposta e os jogos de interesse; isso me fez lembrar o velho truque de cartas quando no final você resiste em acreditar na manipulação sendo que foi você quem fez todas as escolhas. Para quem conhece o curta-metragem 'Ilha das Flores' do diretor gaúcho Jorge Furtado (O homem que copiava) produzido nos anos 80, perceber as referências narrativas de como contar uma história utilizando uma espécie de texto didático, não é nada surpreendente. Fórmula esta que torna acessíveis e amplas suas produções. Quanto vale ou é por quilo?" reúne
um refinado elenco que nos dá a certeza do imenso prazer que tiveram
ao participar desta produção onde o objetivo de transformação
foi a meta do diretor. Anibal Ferrari é sociólogo formado
pela UFPR e desde os anos 90 se dedica a traçar linhas entre a
cultura do entretenimento e as possíveis tranformações
sociais.
O futebol, no Brasil, já rendeu muita música. Há controvérsias sobre qual teria sido a primeira da série. Há quem defenda "Flamengo", de Bonfiglio de Oliveira, gravada em 1931. Na verdade, apesar da torcida rubro-negra, o objetivo de Bonfiglio era homenagear o bairro e não o time carioca. O crítico musical e pesquisador José Ramos Tinhorão puxa a data bem mais para trás: entre 1913 e 1915,Borges Teixeira teria tido a primazia com "Amadores da Bola". Mas quem já ouviu ou conhece tal canção? Então, parece que a bola fica mesmo com o o conhecido choro "Um a Zero", de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Foi composto em 1919 para comemorar a vitória do Brasil sobre o Uruguai que deu à seleção o primeiro título internacional: o de campeão sul-americano. No mesmo embalo de euforia, os compositores Luiz Nunes Sampaio e Feijoada fizeram "Goal (assim mesmo, em inglês) Brasileiro". Mas, quem lembra? Como irmãos siameses que são, o futebol e a música popular durante quase todo o século XX, gingaram juntos. Os artistas da bola no pé dançando nos compassos do samba, jongo, frevo e maxixe, segundo Ari Barroso, compositor, locutor de futebol e flamenguista doente. No time dos compositores, até Noel Rosa, que não era torcedor, fez citações ao futebol em "Conversa de Botequim" e "Mulher Indigesta". Entre os torcedores ardorosos, você tem Lamartine Babo que escreveu dois hinos para o seu Flamengo da paixão, e hinos também para quase todos os times brasileiros. Jorge Benjor, outro flamenguista, em homenagens a craques, com "Fio Maravilha" e "Camisa 10 da Gávea", esta para Zico, e ainda "País Tropical" e "O Zagueiro". Moraes Moreira em "Lá vem o Brasil descendo a ladeira"e "Saudades do Galinho", outra para Zico. Chico Buarque, fluminense roxo, jogando redondinho, todos os sábados no seu Politheama Futebol Club e em músicas como "O Futebol", "Deus lhe pague" e "Ninguém Segura este Rojão", três de uma lista enorme. Mané Garrincha, que foi casado com Elza Soares, não sambou só com a bola no pé: compôs "Receita de Balanço", e a amada gravou. Nos anos 80, muita gente cantou "Um a Um", dos "Paralamas do Sucesso". Nos anos 90, a banda mineira Skank lançou "É uma partida de futebol", com direito a clipe com lances de uma partida entre o Atlético Mineiro e o Cruzeiro. Ah, sim. O compositor Antônio Maria, antes de fazer sucesso com "Ninguém me Ama", foi narrador de futebol em Recife e no Rio de Janeiro. Vou passar rápido por algumas músicas que embalaram as Copas: "Voa, canarinho, voa", "Pra Frente Brasil", "A Taça do Mundo é Nossa", "Aqui é o País do Futebol", e " Marcha da Torcida Brasileira". E vou usar a mais duradoura, a que é praticamente o hino do futebol brasileiro, "Na Cadência do Samba", composta por Luis Bandeira em 1956, para chegar a ligação do futebol com o cinema. Era com essa música, também conhecida como "Que Bonito É", que o Brasil assistia nos anos 50 e 60 nas grandes telas os melhores lances do campeonato da temporada no noticiário "Canal 100"de Carlos Niemayer. O futebol no Brasil também rendeu muitos filmes. Nenhum outro tema foi filmado por um número tão grande de renomados diretores das mais variadas vertentes do cinema brasileiro. O pioneiro Humberto Mauro fez o curta "Copa Roca" em 1939.Maurice Capovilla dirigiu "Subterrâneos do Futebol" em 1964. Em 1970, tivemos os documentários "Tostáo a Fera de Ouro"de Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite, "Copa 70, Brasil Tri-Campeão". São da década de 1980, "Pra Frente, Brasil", de Roberto Farias, "Asa Branca um Sonho Brasileiro" de Djalma Limongi Batista, e "Barbosa", de Ana Luisa e Jorge Furtado. "Perigo Negro" de Rogério Sganzerla, "Cartão Vermelho", de Laís Bodanzki, "Boleiros", de Ugo Georgetti, e o indicado para o Oscar " Uma História do Futebol", dirigido por Paulo Machline são da safra dos '90. E os anos 2000 trouxeram "Garrincha - estrela solitária" de Milton Alencar Jr, "Pelé Eterno" de Aníbal Massaíni Neto, "O Casamento de Romeu e Julieta", de Bruno Barreto, "Ginga, a alma do futebol brasileiro", de Fernando Meirelles, o documentário " A História do Futebol - Um Jogo Mágico" e "Boleiros 2", de Ugo Georgetti. Entre outros de memória, critica e risadas. Do cinema, passemos aos livros que o futebol rendeu. Em
tempos de Copa 2006, as editoras passaram de um à media diária
de cinco lançamentos por dia, tamanho é o mercado potencial
mundial. No Brasil, vamos ficar com os sempre recomendáveis Nelson
Rodrigues em "À Sombra das Chuteiras Imortais", Renato
Pompeu e "Memórias de uma bola de futebol", Rui Castro
em "A estrela solitária - um homem chamado Garrincha",
Juca Kfury em "Meninos, eu vi", e João Saldanha em "Subterrâneos
do Futebol". Também merece atenção "A história
do futebol no Brasil através do Cartum", de Jal e Gual. E
as boas edições brasileiras de "Como o Futebol Explica
o Mundo", de Franklin Foer, e "Futebol ao sol e à sombra",
de Eduardo Galeano. Não dá para deixar de dizer que entre as
artes associadas ao futebol destaca-se a arte de ganhar dinheiro que,
infelizmente, associa-se não só a, digamos aparentemente
inocentes vendas de material esportivo e não tão inocentes
de cervejas e refrigerantes. Máfias do apito e da cartolagem, lavagem
de dinheiro, tráfico de influência, fraudes, mutretas e trambiques
para que o futebol renda sobretudo muito lucro. Náo dá para
ignorar as palavras de Eduardo Galeano que também vão servir
para encerrar esse texto que se tornou mais longo do que deveria: À medida que o esporte se fez indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar simplesmente porque sim. Neste mundo (...) o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. O jogo se converteu em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar e o espetáculo se converteu em um dos negócios mais lucrativos do mundo, que não se organiza para jogar senão para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria. Atrofia a fantasia e proíbe a ousadia. Por sorte ainda aparece nos gramados, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara-de-pau que sai não se sabe de onde e comete o disparate de desmoralizar toda a equipe rival, e ao juiz, e ao público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança à aventura proibida da liberdade. Noemi Osna é jornalista formada pela UFPR, especializada em música brasileira e coloca no ar na Rádio Educativa do PR esse visível amor pela nossa cultura.
Impérios se desintegraram, se dividiram, desapareceram deixando apenas intrigantes ruínas, sucumbiram a invasões ou a outros impérios e foram superados em poder e riqueza por suas ex-colônias. Mas nunca a sede de um governo imperial havia se transferido para seus domínios - até o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, escapando da ocupação napoleônica. Ainda que forçado pelas circunstâncias, Portugal assumia novamente a primazia na história: era também a primeira vez que um soberano europeu cruzava o Atlântico e tocava o solo americano, num deslocamento de proporções inéditas, que só seria superado por reis e rainhas - em quilometragem, mas não em número de pessoas do séquito - em pleno século XX. Inusitado inclusive para os padrões da época, o fato é decisivo para a compreensão da história do Brasil e de Portugal e ainda hoje, sob diversas perspectivas, continua sendo visitado pela historiografia dos dois países. É compreensível, pois, que ele interesse também a pesquisadores estrangeiros e quiçá cause espanto entre leitores não lusófonos - especialmente os que sempre esperam algo exótico do Brasil. Império à deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro (Objetiva, 326 páginas, R$ 47,90), originalmente publicado na Inglaterra, pertence à longa linhagem da visão exterior de nossa história, cultura e sociedade genericamente chamada de "brasilianista". Escrita por Patrick Wilcken, jornalista australiano radicado em Londres, a obra enfatiza a excrescência da monarquia portuguesa em relação à Europa efervescente e de sua colônia sul-americana em comparação ao continente europeu. Ela descreve o olhar sobretudo de britânicos e franceses, estarrecidos com o ritual absolutista e o fervor católico da corte lisboeta, e o desconforto da aristocracia lusa exilada com a insipiência da infra-estrutura urbana, o mal cheiro, os insetos, as tempestades tropicais, o calor, os costumes - inclusive os da elite local - e a feição hegemonicamente africana e mestiça da população do Rio. Sensações, afetos, opiniões, virtudes e vícios dos personagens são inseparáveis da história narrada por Wilcken, que reconstitui os treze anos da corte joanina no Brasil principalmente a partir de relatos da época. Organizado em capítulos que seguem a cronologia dos eventos, o livro inicia-se com os lances que precederam à partida da realeza lusitana (sob a tutela militar da Grã-Bretanha) e culmina com as pressões portuguesas que levaram o agora rei d. João VI a regressar à Europa, em 1821, deixando ao filho o comando da antiga colônia que não tardaria a se emancipar. Porém, se a leitura de Império à deriva merece os adjetivos "fluente e agradável", conforme o jargão das resenhas, recendendo a um humor discreto e elegante e evitando cansar o leitor com capítulos longos, análises densas e excesso de notas, além da aparente inocência de apenas contar uma história (ou várias dentro de uma), a rarefação crítica e metodológica torna o livro anfíbio, deslizando do rigor historiográfico para a doçura do relato para não lhe comprometer as feições distendidas de simples "narrativa". O despojamento interpretativo do narrador reduz a história à mera descrição de fatos costurados por técnicas do gênero biográfico, numa espécie de romance que aconteceu. Assim, quem quer que percorra as páginas de Império à deriva certamente apreciará uma narrativa bem montada, mas estará longe da percepção efetivamente histórica da corte joanina no Rio de Janeiro. Sem maiores aparatos críticos que o próprio bom-senso, Wilcken incorre no erro elementar de não desconfiar de suas fontes, constituídas por uma variedade de gêneros que vai da carta pessoal aos relatos de viajantes europeus. O largo emprego das clássicas obras de Tobias Monteiro, Oliveira Lima, Melo Morais, Luís Edmundo, Ângelo Pereira e Varnhagen, entre outras, escritas no século XIX ou na primeira metade do XX, também é desacompanhado da devida reserva com que se deve apropriar delas. Falha agravada por uma bibliografia restrita e lacunar (em que, dos 142 títulos arrolados, 94 foram escritos ou estão na versão em inglês), levando o autor a ignorar Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, enquanto recorre a um artigo de 1974 publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo para fundamentar a afirmação de que Portugal arrochara a dependência colonial do Brasil para não perdê-lo. Dessa insuficiência resulta a reposição de velhos estereótipos, há décadas superados pela historiografia, que constroem um d. João VI glutão, inseguro e tosco, uma d. Carlota geniosa, intrigueira e lasciva, uma d. Leopoldina refinada, meiga e íntegra naufragando em meio à barbárie. Como na história de Wilcken só há vontades individuais fazendo frente aos fatos, os tortuosos movimentos do governo português nas tensas duas primeiras décadas do século XIX parecem apenas refletir a tibieza joanina. E a descrição anedótica de personagens, atitudes e comportamentos dos demais membros da família real e do governo português faz crer num império verdadeiramente à deriva, condenado ao ocaso. Ao leitor, portanto, resta acreditar ou não. Joaci Pereira Furtado é doutor em história social pela USP e autor de Uma república de leitores: história e memória na recepção das Cartas chilenas (1845-1989) (Hucitec)
O estúdio do canal suíço de televisão SF1 em Zurique foi palco de uma animada festa brasileira na estréia do Brasil na Copa da Alemanha 2006. Nem mesmo a fraca atuação da seleção canarinho com um magro placar de 1x0 contra Croácia desanimou os brasileiros que festejaram e cantaram ao som da batucada da Berimbanda. A iniciativa de trazer a torcida brasileira aos estúdios de TV partiu da própria rede suíça de televisão SF1 em parceria com o CEBRAC (Centro Brasileiro de Ação Cultural) numa amostra do prestígio e da fama da alegria contagiante do brasileiro. Na sala de recepção dos estúdios da SF1, logo se formou uma espécie de concentração antes do jogo. Muito bate-papo e a confraternização entre amigos e conhecidos que se reencontravam, enquanto os mais empolgados ensaiavam o coro da torcida e esquentavam os tamborins. A torcida brazuca foi recepcionada por um aperitivo regado a suco de laranja, a cerveja tinha que ser comprada no prédio ao lado, uma forma de inibir os ânimos mais exaltados. Para chegar aos estúdios de TV, a torcida passou por um enorme e comprido corredor de concreto com vigas bem altas. Parecíamos entrar pelos corredores de um estádio, tal era a excitação. Durante todo o jogo, os torcedores, com suas bandeiras em punho, puderam circular livremente pelas dependências do estúdio. Havia telões espalhados por todos os cantos e um bar onde se vendiam cervejas, saladas e sanduíches. Na pausa do jogo, como havia sido anteriormente combinado, todos os torcedores deviam permanecer sentados na pequena arquibancada em frente às câmeras enquanto os comentaristas destacariam os melhores lances da partida. Ao serem perguntados pelo apresentador do programa de quanto seria a partida muitos apostaram 4x0. A torcida era regida por um animador de auditório vestido de jardineiro suíço. Ao agitar a bandeirinha do Brasil a torcida se erguia ao som da batucada, quando a bandeirinha da Croácia balançava era a vez dos tímidos, mas nem por isso menos empolgados e felizes croatas. Ao terminar o jogo, os brasileiros não esconderam sua decepção com o desempenho da seleção, mas nem por isso desanimaram. Se a seleção canarinho ainda não se livrou do peso do favoritismo, a torcida brasileira do CEBRAC, por sua vez, jogou um bolão e fez bonito. Houve até croata que ensaiasse passos de samba. Marcelo Candido Madeira Formado em Propaganda e Marketing pela UNIP em São Paulo e atualmente trabalha em Zurique como músico, guitarrista, cantor e compositor. |