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100 anos efervescentes
Caso João Hélio: o pacto com a morte

Clarice Lispector em Correio Feminino

Choro (contido) no Cinema

Biocombustíveis: uma luz no fim do túnel?

Recicle seus valores, eles podem gerar lucro - Anibal Ferrari

Do futebol e outras artes - Noemi Osna
Uma biografia à deriva - Joaci Pereira Furtado
Festa brasileira na TV suíça - Marcelo Candido Madeira
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100 anos efervescentes

O Frevo faz 100 anos. Mas, o gênero já existe desde os meados do século XIX e tem sua origem na quadrilha, tango brasileiro, maxixe e polca. Já nos idos de 1860, era comum pelas ruas do Recife, em Pernambuco, o desfile de bandas militares ou civis e a palavra efervescência já era usada para designar a euforia do povo que se lançava atrás do cortejo.

A escolha da data comemorativa, dia 9 de fevereiro, deve-se ao fato do termo Frevo aparecer pela primeira vez num artigo do Jornal Pequeno de Recife, atualmente, o Diário da Manhã, no ano de 1907. A matéria retratava com entusiasmo a manifestação popular que vinha alcançando cada vez mais notoriedade na capital pernambucana.

O nome Frevo deriva-se das palavras ferver e efervescente, que popularmente são conhecidas como "frever" e "efrevescente". O Frevo lembra ainda confusão, rebuliço e agitação popular.

Como o enigma do ovo ou a galinha não se sabe quem veio primeiro: o Frevo como gênero musical ou o Frevo como dança, que em Pernambuco chama-se passo. Até os meados do século XX, existia muita rivalidade entre as bandas e clubes carnavalescos que terminava, na maioria das vezes, em pancadaria com dezenas de feridos e até casos fatais. Os desfiles, então, contavam com a presença de capoeiristas brutamontes, verdadeiros acrobatas que munidos de pedaços de pau inibiam os mais briguentos e valentões. Para enganar a polícia, os capoeiristas, aos poucos, começaram a inventar passos, criando uma coreografia própria para acompanhar a "onda" dos cordões carnavalescos. Com o passar do tempo os cacetes e bengalas foram substituídos por sombrinhas coloridas.

Hoje, o Frevo originário das ruas de Pernambuco tomou o Brasil e o mundo. Muitos compositores da MPB, mesmo não sendo pernambucanos, já flertaram com o gênero. A propagação do Frevo como gênero musical é favorecida em muito pela sua moderna harmonização e a constante evolução nos passos da dança. O Frevo tem tantos passos quanto a criatividade do passista permitir.
Para comemorar o centenário de uma manifestação popular tão querida dos brasileiros, a Prefeitura do Recife além de promover projetos durante o ano sobre o Frevo, está pleiteando junto ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que o Frevo seja reconhecido como patrimônio cultural. Então se prepare, esse ano vai "frever"!

Marcelo Candido Madeira




Caso João Hélio: o pacto com a morte

Neste momento em que parlamentares e jornalistas incentivam uma reação irracional contra os assassinos do pequeno João Hélio, levantando até idéias como a pena de morte, vale discutir como são construídos os criminosos no Brasil.
Por Mauro Santayana, * na Carta Maior


Quando uma jovem da alta classe média paulista - Suzana Richthofen - planejou e participou do assassinato de seus pais, trucidados, enquanto dormiam, a golpes de barras de ferro pelo namorado e o irmão dele, ninguém pediu a pena de morte para a moça. Ao contrário: surgiram comunidades de internautas, dizendo que a amavam.
Da mesma forma, quando um índio pataxó foi queimado, enquanto dormia, para o divertimento de rapazes da alta classe média brasiliense, respeitável juíza do Distrito Federal quis desclassificar o crime, a fim de evitar que fossem levados ao tribunal do júri. Algumas das pessoas de bem da capital da República se mobilizaram, a fim de desculpar os assassinos. Eles estavam apenas querendo "brincar" com o índio. Depois se soube que os rapazes estavam sendo privilegiados na prisão: um deles saía para freqüentar o curso universitário e, entre o fim das aulas e o retorno a uma cela especial da penitenciária, tomava cerveja com os amigos.

É claro que nos revolta muito mais a morte de uma criança de seis anos, da forma brutal como ela se deu, do que a execução de duas pessoas de meia-idade, e a de um remanescente dos bravos tapuias do litoral da Bahia, membro de pequena tribo que escapou do extermínio secular.


A morte por nada


O que choca, ainda mais, no caso do menino João Hélio, é a extrema precariedade da vida nas grandes cidades brasileiras. Morre-se sem nenhuma explicação, como se todos nós andássemos com uma pistola carregada, jogando a roleta-russa. Quando menos se espera, a única bala fica diante do percussor, e o dedo invisível das circunstâncias dispara o gatilho. Se a mãe do menino houvesse passado pelo local cinco minutos antes, ou cinco minutos depois, talvez nada houvesse ocorrido. Ao sair do centro espírita naquele exato momento e ao escolher aquele trajeto, a senhora estava, para seu desespero, entregando o filho ao despropositado martírio.

Todos nós nos sentimos atingidos pelo crime, mas não temos a mesma carga de sofrimento e de ódio que atinge os pais do garoto. Eles têm todo o direito de exigir punição mais severa para os criminosos - até mesmo a morte - incluída a do menor que participou do assassinato. Se pensarmos no que sentiríamos se isso ocorresse a qualquer um de nós, não há limite para o ódio, não há como conter o desejo de vingança pessoal. Qualquer pai seria capaz de matar o assassino de seu filho, ou de sua filha, como tem ocorrido. A senhora, que matou a facadas o adolescente que violentara seu filho pequeno, fez o que muitos de nós seríamos capazes de fazer.

Quando crimes tão bárbaros são cometidos há uma reação coletiva irracional. É o que está ocorrendo agora, quando se pede a pena de morte para os assassinos do pequeno João Hélio. E essa reação é tão mais despropositada quando parte de alguns dos mais poderosos meios de comunicação de massa em nosso país. É o momento da desforra de parte da classe média contra os que defendem os direitos humanos. Jornalistas e parlamentares recorrem aos adjetivos mais fortes, arregalam os olhos, gesticulam, pedindo que o Estado exerça vingança implacável contra os assassinos. Eles se esquecem de que todos nós, criminosos ou não, já estamos condenados à morte. E se esquecem também de que a execução de qualquer criminoso, seja jovem ou velho, não é exatamente um castigo. A agonia de um condenado dura, quando muito, alguns segundos. Depois disso, é o nada. A prisão por bom tempo, nas condições carcerárias do Brasil de hoje, talvez seja punição bem pior do que a morte.


A construção de um bandido

Como se faz um criminoso? Os criminosos, salvo os casos de psicopatia congênita, são construídos, não nascem feitos. A nova deputada federal Marina Magessi, veterana policial carioca, não pode ser apontada como esquerdista, fanática defensora dos "direitos dos bandidos". Ao contrário: sempre foi vista como "durona" na ação policial.
Em recente depoimento à TV Câmara, em companhia do rapper MV Bill, Marina Magessi lembrou que o dia mais difícil da sua vida foi o do assalto ao ônibus da linha 174, em 2000, no Rio, porque teve que prender uma menina de 12 anos, envolvida no incidente. Ela resume o problema, ao dizer que nesses episódios não há algozes: só há vítimas. A menina era tão vítima como Sandro do Nascimento o assaltante, um sobrevivente do massacre da Candelária, que seria assassinado logo em seguida pela polícia, e a jovem Geisa Gonçalves, morta durante a intervenção policial.

"Não é a pobreza que leva ao crime, mas, sim, a falta de inclusão" - disse a mesma senhora, em outra oportunidade. "No Rio, essas crianças não pertencem a nada. Não têm família, não têm igreja, não têm Estado". Se quisermos ir mais fundo no problema, devemos deixar os limites das favelas, do Rio de Janeiro e do Brasil.
Escolhemos nessa pobre cultura universal contemporânea, induzidos pelos meios de comunicação de massa, sobretudo do cinema e da televisão, modelo de vida que pode ser definido como o de pacto com a morte. Passamos parte de nossa vida vendo as balas penetrarem na testa de bandidos ou não, acostumamo-nos com o jorro de sangue e, em certos casos, experimentamos voluptuosa emoção diante dos corpos que tombam.

Mesmo os homens mais velhos se recordam da influência do cinema nos jogos infantis - e a violência daquele tempo era quase inocente, diante da que nos chega, pela televisão, todos os dias. Brincava-se, então, de artista e bandido. Os heróis eram artistas, e os vilões, os bandidos. Era o mito da "violência positiva", que os norte-americanos haviam criado, com suas "short-stories", destinadas a distrair os trabalhadores imigrantes do início do século 20, que depois passaram a ser filmadas por judeus húngaros, em Hollywood. Ainda que houvesse, em contraponto, a arte de Chaplin e outros, o mito da violência acabou prevalecendo. Chaplin era um realizador para quem conseguia pensar.
Hoje, crianças de três, quatro anos, treinam para matar nos vídeo-games, em que, do sangue que espirra dos atingidos pelas balas virtuais, só falta o cheiro da morte. Os super-heróis ganharam a força dos elétrons.


O Brasil não é pior

Há quem debite a violência brasileira ao nosso caráter. É uma conclusão estúpida. O Brasil tem cerca de duzentos milhões de habitantes, e uma exígua parcela dessa população se envolve em episódios violentos, seja no campo ou nas cidades, maiores e menores. Os criminosos não chegam a meio por cento da população.

Crimes horripilantes - como os de canibalismo - ocorrem no berço da civilização ocidental, que é a Europa, isso sem falar nos Estados Unidos, onde meninos de dez, onze anos, matam seus colegas de escola a tiro limpo. As penas são pesadíssimas e, em alguns Estados, como o Alabama, o Arizona, e Lousiana, crianças de qualquer idade poderiam ser condenadas à morte até 1º de março de 2005, quando a Suprema Corte proibiu a execução de menores de 18 anos, com base na oitava emenda da Constituição, que proíbe castigos cruéis. Nem por isso a criminalidade juvenil nos Estados Unidos se viu reduzida.


A juíza e a policial

A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, fez a observação certa: os legisladores não podem agir sob a pressão das circunstâncias. É necessário ver todos os ângulos do problema. No caso, com toda a diferença biográfica entre a jurista e a inspetora de Polícia que se elegeu deputada, as duas se encontram do mesmo lado da razão. Para uma é preciso que a lei esteja dentro da lógica do direito; para a outra, que conhece a realidade de perto, é muito difícil distinguir entre algozes e vítimas.

E, já que citamos o rapper MV Bill, não podemos desprezar o seu duro libelo, pelo menos no que toca ao tráfico de drogas. É o viciado da classe média (ele também uma vítima de um modo de vida opressivo) que faz o traficante. E podemos levar o tema mais longe: são os viciados norte-americanos e europeus - e os que "lavam" o dinheiro sujo do tráfico - que promovem o cultivo da coca na América do Sul e o da papoula no Afeganistão, crescente mesmo com a invasão militar estrangeira. É bom não esquecer que os ingleses moveram duas guerras contra a China (a segunda delas aliados aos franceses) porque o governo chinês proibira o uso do ópio, e a puritaníssima Inglaterra, da Era Vitoriana, era exportadora do narcótico, cultivado na Índia, para o grande mercado do Império do Meio. O mundo anglo-saxão tem todas as razões para temer uma revanche amarela.
Enfim, estas são algumas reflexões para os que não se divertem com o carnaval.


* colunista político do Jornal do Brasil


Clarice Lispector em Correio Feminino

Correio Feminino, de Clarice Lispector, lançado em 2006, é uma coletânea de textos publicados na imprensa carioca, nas décadas de 50 e 60. Clarice, durante este período, adotou pseudônimos sob os quais assinava colunas femininas. Não são contos, não é literatura, nem romance. São textos curtos, extremamente femininos. Não feministas. Por isso, belos, com a delicadeza de quem fala da alma da mulher.
Correio Feminino pode ser lido de várias formas. Por se tratar de uma coletânea, com a maioria dos textos curtos, pode ser lido rapidinho, aquela leitura no ônibus ou no bonde. Ou pode ser lido mais demoradamente. Ou ainda, ir folheando daqui e dali, lendo um texto lá do fim, antes de ler o primeiro capítulo. É um livro maleável.
Sobre o quê
Os textos falam para as mulheres dos anos 50 e 60, dão conselhos de beleza, de comportamento, de moda e de homens. Hoje, sem dúvida, alguns comportamentos, como algumas roupas, já saíram de moda. (Mesmo que alguns insistam em usá-los). No entanto, é interessante perceber o quanto muitos dos pensamentos abordados ainda fazem sentido, como por exemplo, sobre homens, Clarice disse: "não são tudo, mas são importantes para construirmos nossa felicidade". Então, a escritora fala sobre como tratar o marido, ser uma mulher atenciosa, sem esquecer seu lado sedutor, seu sex-appeal. Sobre moda, não vamos mais comprar nenhuma fazenda para fazer nenhum vestido, mas vamos sempre prestar atenção ao que nos cai bem, ao nosso tipo, seguindo alguma moda, sem perder a personalidade.
Se algum homem quisesse (ou quiser) ler algum destes textos, provavelmente não entenderá muito. É mais provável que eles simplesmente não se interessem por esse tipo de assunto. No entanto, Clarice fala muito de homens, homens maridos, futuros maridos, homens e mulheres.
Que mistérios
Correio Feminino é Clarice Lispector, e não dá pra ser mulher sem ser inteligente, crítica, perspicaz, esperta, sedutora, amante e amada.
E assim é também a biblioteca do CEBRAC, com um mundo de livros, para todos os gostos, a qualquer momento: os mais recentes lançamentos e os maiores clássicos.

Alice Peixoto - Assessoria de Imprensa CEBRAC



Choro (contido) no Cinema


Brasileirinho é um documentário sobre Choro. Choro é o primeiro estilo musical genuinamente brasileiro, "anterior ao Samba e à Bossa Nova", diz a bela voz em off nos minutos iniciais da narração que segue ao longo do filme. Também conhecido como Chorinho, o rítimo mistura influências da música erudita européia, da polka, dos rítimos africanos, com a melancólica interpretação indígena. Tudo começou no final do século XIX. Hoje, o estilo continua bem vivo nas rodas de choro espalhadas pelo Brasil. Brasileirinho pretende ser o testemunho áudio-visual dessa vitalidade.

No filme de Mika Kaurismäki, uma co-produção entre Brasil, Suíça e Finlândia, o Choro, claro personagem principal, simplesmente rouba a cena. Brasileirinho exibe em comportado estilo boa música, bons músicos, informação e bons depoimentos. É uma bela apresentação para quem nunca foi a uma roda de Choro, para quem nunca ouviu um CD (ou disco mesmo) de Pixinguinha e cia. (Já que o dia do Choro é comemorado em 23 de abril, aniversário de Pixinguinha, não é preciso escolher entre os nomes dos diversos chorões, quem toca choro, para citar o mestre).

Os depoimentos estão bem enquadrados, seguem um rítimo plano, nenhum é verdadeiramente emocionante. O estilo nos é apresentado com uma certa frieza, tendo como admiradores e seguidores em sua maioria músicos apaixonados pelo gênero. Uma exceção à este fato é a interpretação de Yamandú Costa interpretando "Carinhoso", de Pixinguinha e João de Barro, e que deixa a nossa emoção quase sem fôlego, com certeza um ponto alto do filme.

Mas, não é preciso se revestir com a carapuça de grande crítico documental para absorver os diversos pecados encontrados na produção final deste gênero religiosamente fascinante. As discussões dos mais exigentes espectadores - ou minimamente quem já viveu uma roda de choro - ampliam nosso universo. Para alguns o diretor pecou na edição exibindo um formato bonzinho e catolicamente correto. Para outros a quebra está na produção impecável e artificial de cenas específicas para o documentário. Para o público conhecedor do estilo, a falta maior foi dos câmeras que poucas vezes sustentaram o virtuosismo e a simplicidade dos dedilhados. Enfim, para o público geral faltou emoção.

Em artigos sobre o documentário. Moro no Brasil, produção anterior do diretor, algumas dessas pequenas falhas foram citadas, além de colocar Kaurismäki intencionado como uma espécie de Ry Cooder que quer redescobrir o Brasil para o mundo, como fez com a música cubana. Estamos ainda longe de encontrar o nosso Ry Cooder, que como músico, viveu e presenciou de corpo e a alma aquele gênero.

A narração em off ajuda a costurar os depoimentos e apresentações dos músicos. Mais uma vez, para quem não conhece o Choro, explica, define, esclarece. Mas para quem já conhece, não apresenta muitos dados novos.

Quanto à música e aos músicos: basta ouvir e se deliciar. Tem Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker, Ronaldo Souza, Yamandú, Elza Soares, Teresa Cristina, Pedro Miranda, Paulo Moura, Guinga, Ademilde Fonseca, Zezé Gonzaga, Marcos Suzano, Joel Nascimento, Silvério Pontes, Zé da Velha, Carlinhos Leite, Hamilton de Holanda, Henrique Cazes, Daniel Spilmann, Umberto Araújo, Joel Nascimento, Fred Dantas, Edson Santos, Maurício Carrilho, Luciana Rabello e mais.

Ótima música, imagens bonitas, vale conferir e sair saudosista do cinema: "Brasileirinho" está em Zurique, no Arthouse Piccadilly.

Alice Peixoto e Anibal Ferrari


Biocombustíveis: uma luz no fim do túnel?

Deu no Wall Street Journal, de 17 e 18 de junho. O etanol, nosso popular álcool, está sendo proposto como a grande tacada dos Estados Unidos no mundo das energias renováveis. Eles estão cada vez mais dependentes do petróleo do Oriente Médio, o que é grave, pois todo mundo conhece a instabilidade política dessa região. Isso acaba pesando no bolso dos consumidores porque o preço do petróleo nunca foi tão alto, obrigando novas atitudes na área energética.

Apesar de não assinarem o Protocolo de Kyoto, é impressionante como boa parte da comunidade verde na terra do Tio Sam abraçou a causa, incluindo parte dos governos locais (estaduais e municipais) e do setor empresarial, que, voluntariamente, estão adotando medidas de controle de suas emissões. Exemplo disso é a criação da Chicago Climate Exchange, especializada na comercialização de créditos de carbono. As "vedetes" nos negócios verdes nos EUA têm sido programas de biocombustíveis. Já existem algumas experiências de adição de etanol à gasolina funcionando e também fala-se bastante em biodiesel.

O etanol norte-americano é produzido principalmente a partir do milho e sua produção se concentra no Mid-West, exatamente onde está Chicago. Não é à toa que haja um súbito interesse pela experiência brasileira do carro a álcool, a ponto do artigo no Wall Street Journal começar de forma provocativa: "'Be like Brasil' have never been words to live by except perhaps in soccer or samba".

Se for viável, essa solução irá permitir conciliar a insaciável demanda norte-americana por automóveis (basta ver o novo desenho da Disney, chamado simplesmente de... "Carros") com a redução do consumo de combustíveis fósseis, causa principal do aquecimento global. Por isso, tanto interesse no que parece ser o assunto do momento, que acaba também entusiasmando terras tupiniquins. A revista Exame, de 21 de junho, traz na capa "Etanol: A nova riqueza do Brasil" e, de recheio, logo nas primeiras páginas, a matéria "Etanol. O Mundo quer. O Brasil tem".

Pois bem, parece que nos deparamos aí com a nova era dos combustíveis, e desta vez a iniciativa privada está investindo pesado na nova promessa. Considerando que a produção do etanol tem tudo para ser promissora, também existe a sorte de problemas como o atendimento a essa demanda mundial pelo produto e o aumento do desmatamento (aliás, pouquíssimo falado em todas as abordagens). Mais do que nunca cabe voltar um pouco o filme, e entender quais foram as razões para que o Pró-Álcool tivesse sido considerado por um bom tempo um malfadado programa governamental. Será que o patinho feio agora virou cisne?

Pressão dos plantios

Um problema que certamente virá à tona é a esperada pressão por mais terras de cultivo para a produção dos biocombustíveis. Dentro do agronegócio convivem empresários com responsabilidade social junto com segmentos que podem ser incluídos no que tem de mais atrasado no capitalismo brasileiro. Atualmente o setor sucroalcooleiro é liderado por empresas modernas, mas cabe sempre a questão: uma elevação da demanda internacional por álcool poderá encher de novo a bola dos "velhos" senhores de engenho, cuja mentalidade pouco evoluiu em termos de compromissos sociais e ambientais?

Em uma conversa com Roberto Schaeffer, do Programa de Planejamento Energético da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esses problemas ficaram claros. Uma simples conta ajuda a nos remeter à realidade. Se o Brasil tivesse a mesma frota de veículos dos EUA, que é de 180 milhões de carros, seria necessário expandir em 100% a área plantada no Brasil, só para o cultivo de cana. Ou seja, tudo seria transformado em canavial. Salta aos nossos olhos: inviável. Atualmente a frota mundial é de 750 milhões de veículos. No Brasil é de 20 milhões. Como atender toda essa demanda? Boa pergunta.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao biodiesel. No papel, tudo é lindo, mas até que ponto temos garantias de que a biomassa necessária para sua elaboração será obtida de forma sustentável? O biodiesel pode ser feito a partir da soja. Vamos lá. O Brasil é um dos maiores produtores de soja. Todo ano, são contabilizadas toneladas de soja excedente, e isso acaba reduzindo o preço e o lucro do sojeiro. Agora, se esse excedente for canalizado para o biodiesel, a safra passa a ter um comprador certo. O biodiesel não seria então uma solução para a pressão dos produtores de soja para escoar a sobra não comercializada de grãos?

Não podemos esquecer que tanto o etanol quanto o biodiesel não são obtidos por um passe de mágica. O processo de preparação da terra, plantio e colheita além do próprio processamento e distribuição do combustível envolvem consumo de diesel e emissão de poluentes. Não podemos aceitar trocar "seis por meia dúzia".

Investimentos em hidrogênio

Na Califórnia, Arnold Schwarzenegger parece estar usando todos aqueles músculos tão úteis nos filmes hollywodianos em investimentos em células de hidrogênio. O estado americano tem 35 milhões de habitantes e 24 milhões de veículos consumindo 16,4 bilhões de barris de gasolina e diesel por ano! A Califórnia ainda tem cinco das top 10 cidades americanas com maior nível de poluição do ar. Um guia pequeno, mas recheado de informações sobre as pesquisas em hidrogênio na Califórnia - o California Hydrogen and Fuel Cell Guide - mostra essas preocupações do governo, estudos de caso de empresas como BMW, Ford, GM, Nissan, Toyota, Siemens, DaimlerChrysler, e muitas outras, empenhadas em tornar as células de combustível uma realidade. Porém, operações em larga escala com veículos movidos a hidrogênio - um "exterminador de emissões do futuro" - continuam na ficção científica.

Os principais problemas para esse tipo de energia continuam sendo a obtenção do hidrogênio e sua dificuldade de armazenamento, já que é um gás extremamente volátil. A forma convencional de obter hidrogênio é através da hidrólise, processo em que uma corrente elétrica separa a molécula de água em hidrogênio e oxigênio. Um programa em larga escala requer grande quantidade de energia para separar as moléculas, e pelo princípio da entropia acaba-se gastando mais energia útil (eletricidade) do que a que fica disponível para as células de combustível (hidrogênio). Voltamos a trocar "seis por meia dúzia"?

Os Estados Unidos têm motivo de sobra para se preocupar com a qualidade do ar, emissões de gases de efeito estufa, preço do combustível... Os perigos do aquecimento global estão tornando as coisas mais fáceis para o lado verde, sem dúvida. Mas, lá no fundo, todos nós sabemos que o barril de petróleo a 75 dólares é que torna essa onda mais surfável. Infelizmente é a regra da sociedade. Mas, felizmente, apertou no bolso e alargou nas alternativas.

Todas as energias alternativas e renováveis juntas não supririam as projeções de padrão de consumo mundial. A nossa grande tacada é que não devemos entrar numa busca incansável de um novo padrão de energia e sim mudar o nosso padrão de consumo. As tecnologias estão aí: tem a solar, a eólica, a geotérmica, a das ondas e das marés, a biomassa, o biogás, as pequenas centrais hidrelétricas. Agora, nos resta saber quanto cada um está disposto a pagar por isso.

Fonte: www.oeco.com.br
Carlos Eduardo Young e Priscila Geha Steffen

Carlos Eduardo Young é economista, professor de Economia do Meio Ambiente da UFRJ e Doutor em Economia pela University College London. Priscila Geha Steffen é paranaense, jornalista ambiental e apresentadora do programa Andante, sobre música brasileira.


Recicle seus valores, eles podem gerar lucro

Desde o ano de 2000, quando lançou o contundente longa "Cronicamente Inviável", o diretor paranaense Sergio Bianchi mergulhou no universo do cinema nacional portando uma fina agulha com a qual teve a ousadia de enfiá-la com destreza nas feridas encobertas da sociedade brasileira.

Sergio Bianchi tem em sua filmografia quatro curtas-metragens, um média e cinco longas e foram seus últimos trabalhos que expuseram-no como uma espécie de diretor "Maldito" que polemiza e critica a sociedade na qual vive.

Mas foi por essa linha que estampa a hipocrisia do pensar e agir brasileiro que conquistou inúmeros fãs sempre ávidos pela próxima produção.

Há quem diga que o papel do cinema é muito mais profundo que o simples entretenimento, que a transformação deveria ser a grande meta. Seguindo ou não esta meta, Bianchi conseguiu escancarar de forma objetiva e inteligente o conformismo e os equívocos alimentados por nós, ignorantes, na construção do nosso país e consequentemente de um mundo melhor sem sabermos para quem o construímos.

"Quanto vale ou é por quilo?" (2004) é o mais recente trabalho do diretor que faz uma releitura da solidariedade através de números e estatísticas que surpreendem. Desmascara o trabalho de centenas de ONGs sociais mostrando que 'ser bom e solidário gera status e uma margem de lucro realmente satisfatória'.

Entre este tema, Bianchi traça um paralelo entre os tempos da escravidão e os dias atuais com tamanho talento que coloca essa evolução mascarada de um país, hoje, democrático e livre, onde quem rege esta liberdade é a miséria imposta e os jogos de interesse; isso me fez lembrar o velho truque de cartas quando no final você resiste em acreditar na manipulação sendo que foi você quem fez todas as escolhas.

Para quem conhece o curta-metragem 'Ilha das Flores' do diretor gaúcho Jorge Furtado (O homem que copiava) produzido nos anos 80, perceber as referências narrativas de como contar uma história utilizando uma espécie de texto didático, não é nada surpreendente. Fórmula esta que torna acessíveis e amplas suas produções.

Quanto vale ou é por quilo?" reúne um refinado elenco que nos dá a certeza do imenso prazer que tiveram ao participar desta produção onde o objetivo de transformação foi a meta do diretor.
Fica aqui os cumprimentos a mais um excelente trabalho!

Anibal Ferrari é sociólogo formado pela UFPR e desde os anos 90 se dedica a traçar linhas entre a cultura do entretenimento e as possíveis tranformações sociais.

 

Do futebol e outras artes

O futebol, no Brasil, já rendeu muita música. Há controvérsias sobre qual teria sido a primeira da série. Há quem defenda "Flamengo", de Bonfiglio de Oliveira, gravada em 1931. Na verdade, apesar da torcida rubro-negra, o objetivo de Bonfiglio era homenagear o bairro e não o time carioca.

O crítico musical e pesquisador José Ramos Tinhorão puxa a data bem mais para trás: entre 1913 e 1915,Borges Teixeira teria tido a primazia com "Amadores da Bola". Mas quem já ouviu ou conhece tal canção?

Então, parece que a bola fica mesmo com o o conhecido choro "Um a Zero", de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Foi composto em 1919 para comemorar a vitória do Brasil sobre o Uruguai que deu à seleção o primeiro título internacional: o de campeão sul-americano. No mesmo embalo de euforia, os compositores Luiz Nunes Sampaio e Feijoada fizeram "Goal (assim mesmo, em inglês) Brasileiro". Mas, quem lembra?

Como irmãos siameses que são, o futebol e a música popular durante quase todo o século XX, gingaram juntos. Os artistas da bola no pé dançando nos compassos do samba, jongo, frevo e maxixe, segundo Ari Barroso, compositor, locutor de futebol e flamenguista doente.

No time dos compositores, até Noel Rosa, que não era torcedor, fez citações ao futebol em "Conversa de Botequim" e "Mulher Indigesta". Entre os torcedores ardorosos, você tem Lamartine Babo que escreveu dois hinos para o seu Flamengo da paixão, e hinos também para quase todos os times brasileiros. Jorge Benjor, outro flamenguista, em homenagens a craques, com "Fio Maravilha" e "Camisa 10 da Gávea", esta para Zico, e ainda "País Tropical" e "O Zagueiro". Moraes Moreira em "Lá vem o Brasil descendo a ladeira"e "Saudades do Galinho", outra para Zico. Chico Buarque, fluminense roxo, jogando redondinho, todos os sábados no seu Politheama Futebol Club e em músicas como "O Futebol", "Deus lhe pague" e "Ninguém Segura este Rojão", três de uma lista enorme. Mané Garrincha, que foi casado com Elza Soares, não sambou só com a bola no pé: compôs "Receita de Balanço", e a amada gravou. Nos anos 80, muita gente cantou "Um a Um", dos "Paralamas do Sucesso". Nos anos 90, a banda mineira Skank lançou "É uma partida de futebol", com direito a clipe com lances de uma partida entre o Atlético Mineiro e o Cruzeiro. Ah, sim. O compositor Antônio Maria, antes de fazer sucesso com "Ninguém me Ama", foi narrador de futebol em Recife e no Rio de Janeiro.

Vou passar rápido por algumas músicas que embalaram as Copas: "Voa, canarinho, voa", "Pra Frente Brasil", "A Taça do Mundo é Nossa", "Aqui é o País do Futebol", e " Marcha da Torcida Brasileira".

E vou usar a mais duradoura, a que é praticamente o hino do futebol brasileiro, "Na Cadência do Samba", composta por Luis Bandeira em 1956, para chegar a ligação do futebol com o cinema. Era com essa música, também conhecida como "Que Bonito É", que o Brasil assistia nos anos 50 e 60 nas grandes telas os melhores lances do campeonato da temporada no noticiário "Canal 100"de Carlos Niemayer.

O futebol no Brasil também rendeu muitos filmes. Nenhum outro tema foi filmado por um número tão grande de renomados diretores das mais variadas vertentes do cinema brasileiro.

O pioneiro Humberto Mauro fez o curta "Copa Roca" em 1939.Maurice Capovilla dirigiu "Subterrâneos do Futebol" em 1964. Em 1970, tivemos os documentários "Tostáo a Fera de Ouro"de Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite, "Copa 70, Brasil Tri-Campeão".

São da década de 1980, "Pra Frente, Brasil", de Roberto Farias, "Asa Branca um Sonho Brasileiro" de Djalma Limongi Batista, e "Barbosa", de Ana Luisa e Jorge Furtado. "Perigo Negro" de Rogério Sganzerla, "Cartão Vermelho", de Laís Bodanzki, "Boleiros", de Ugo Georgetti, e o indicado para o Oscar " Uma História do Futebol", dirigido por Paulo Machline são da safra dos '90.

E os anos 2000 trouxeram "Garrincha - estrela solitária" de Milton Alencar Jr, "Pelé Eterno" de Aníbal Massaíni Neto, "O Casamento de Romeu e Julieta", de Bruno Barreto, "Ginga, a alma do futebol brasileiro", de Fernando Meirelles, o documentário " A História do Futebol - Um Jogo Mágico" e "Boleiros 2", de Ugo Georgetti. Entre outros de memória, critica e risadas.

Do cinema, passemos aos livros que o futebol rendeu. Em tempos de Copa 2006, as editoras passaram de um à media diária de cinco lançamentos por dia, tamanho é o mercado potencial mundial. No Brasil, vamos ficar com os sempre recomendáveis Nelson Rodrigues em "À Sombra das Chuteiras Imortais", Renato Pompeu e "Memórias de uma bola de futebol", Rui Castro em "A estrela solitária - um homem chamado Garrincha", Juca Kfury em "Meninos, eu vi", e João Saldanha em "Subterrâneos do Futebol". Também merece atenção "A história do futebol no Brasil através do Cartum", de Jal e Gual. E as boas edições brasileiras de "Como o Futebol Explica o Mundo", de Franklin Foer, e "Futebol ao sol e à sombra", de Eduardo Galeano.

Não dá para deixar de dizer que entre as artes associadas ao futebol destaca-se a arte de ganhar dinheiro que, infelizmente, associa-se não só a, digamos aparentemente inocentes vendas de material esportivo e não tão inocentes de cervejas e refrigerantes. Máfias do apito e da cartolagem, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, fraudes, mutretas e trambiques para que o futebol renda sobretudo muito lucro. Náo dá para ignorar as palavras de Eduardo Galeano que também vão servir para encerrar esse texto que se tornou mais longo do que deveria:

À medida que o esporte se fez indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar simplesmente porque sim. Neste mundo (...) o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. O jogo se converteu em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar e o espetáculo se converteu em um dos negócios mais lucrativos do mundo, que não se organiza para jogar senão para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria. Atrofia a fantasia e proíbe a ousadia. Por sorte ainda aparece nos gramados, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara-de-pau que sai não se sabe de onde e comete o disparate de desmoralizar toda a equipe rival, e ao juiz, e ao público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança à aventura proibida da liberdade.

Noemi Osna é jornalista formada pela UFPR, especializada em música brasileira e coloca no ar na Rádio Educativa do PR esse visível amor pela nossa cultura.

 

Uma biografia à deriva

Impérios se desintegraram, se dividiram, desapareceram deixando apenas intrigantes ruínas, sucumbiram a invasões ou a outros impérios e foram superados em poder e riqueza por suas ex-colônias. Mas nunca a sede de um governo imperial havia se transferido para seus domínios - até o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, escapando da ocupação napoleônica. Ainda que forçado pelas circunstâncias, Portugal assumia novamente a primazia na história: era também a primeira vez que um soberano europeu cruzava o Atlântico e tocava o solo americano, num deslocamento de proporções inéditas, que só seria superado por reis e rainhas - em quilometragem, mas não em número de pessoas do séquito - em pleno século XX.

Inusitado inclusive para os padrões da época, o fato é decisivo para a compreensão da história do Brasil e de Portugal e ainda hoje, sob diversas perspectivas, continua sendo visitado pela historiografia dos dois países. É compreensível, pois, que ele interesse também a pesquisadores estrangeiros e quiçá cause espanto entre leitores não lusófonos - especialmente os que sempre esperam algo exótico do Brasil.

Império à deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro (Objetiva, 326 páginas, R$ 47,90), originalmente publicado na Inglaterra, pertence à longa linhagem da visão exterior de nossa história, cultura e sociedade genericamente chamada de "brasilianista". Escrita por Patrick Wilcken, jornalista australiano radicado em Londres, a obra enfatiza a excrescência da monarquia portuguesa em relação à Europa efervescente e de sua colônia sul-americana em comparação ao continente europeu. Ela descreve o olhar sobretudo de britânicos e franceses, estarrecidos com o ritual absolutista e o fervor católico da corte lisboeta, e o desconforto da aristocracia lusa exilada com a insipiência da infra-estrutura urbana, o mal cheiro, os insetos, as tempestades tropicais, o calor, os costumes - inclusive os da elite local - e a feição hegemonicamente africana e mestiça da população do Rio.

Sensações, afetos, opiniões, virtudes e vícios dos personagens são inseparáveis da história narrada por Wilcken, que reconstitui os treze anos da corte joanina no Brasil principalmente a partir de relatos da época. Organizado em capítulos que seguem a cronologia dos eventos, o livro inicia-se com os lances que precederam à partida da realeza lusitana (sob a tutela militar da Grã-Bretanha) e culmina com as pressões portuguesas que levaram o agora rei d. João VI a regressar à Europa, em 1821, deixando ao filho o comando da antiga colônia que não tardaria a se emancipar.

Porém, se a leitura de Império à deriva merece os adjetivos "fluente e agradável", conforme o jargão das resenhas, recendendo a um humor discreto e elegante e evitando cansar o leitor com capítulos longos, análises densas e excesso de notas, além da aparente inocência de apenas contar uma história (ou várias dentro de uma), a rarefação crítica e metodológica torna o livro anfíbio, deslizando do rigor historiográfico para a doçura do relato para não lhe comprometer as feições distendidas de simples "narrativa".

O despojamento interpretativo do narrador reduz a história à mera descrição de fatos costurados por técnicas do gênero biográfico, numa espécie de romance que aconteceu. Assim, quem quer que percorra as páginas de Império à deriva certamente apreciará uma narrativa bem montada, mas estará longe da percepção efetivamente histórica da corte joanina no Rio de Janeiro.

Sem maiores aparatos críticos que o próprio bom-senso, Wilcken incorre no erro elementar de não desconfiar de suas fontes, constituídas por uma variedade de gêneros que vai da carta pessoal aos relatos de viajantes europeus. O largo emprego das clássicas obras de Tobias Monteiro, Oliveira Lima, Melo Morais, Luís Edmundo, Ângelo Pereira e Varnhagen, entre outras, escritas no século XIX ou na primeira metade do XX, também é desacompanhado da devida reserva com que se deve apropriar delas. Falha agravada por uma bibliografia restrita e lacunar (em que, dos 142 títulos arrolados, 94 foram escritos ou estão na versão em inglês), levando o autor a ignorar Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, enquanto recorre a um artigo de 1974 publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo para fundamentar a afirmação de que Portugal arrochara a dependência colonial do Brasil para não perdê-lo.

Dessa insuficiência resulta a reposição de velhos estereótipos, há décadas superados pela historiografia, que constroem um d. João VI glutão, inseguro e tosco, uma d. Carlota geniosa, intrigueira e lasciva, uma d. Leopoldina refinada, meiga e íntegra naufragando em meio à barbárie. Como na história de Wilcken só há vontades individuais fazendo frente aos fatos, os tortuosos movimentos do governo português nas tensas duas primeiras décadas do século XIX parecem apenas refletir a tibieza joanina. E a descrição anedótica de personagens, atitudes e comportamentos dos demais membros da família real e do governo português faz crer num império verdadeiramente à deriva, condenado ao ocaso. Ao leitor, portanto, resta acreditar ou não.

Joaci Pereira Furtado é doutor em história social pela USP e autor de Uma república de leitores: história e memória na recepção das Cartas chilenas (1845-1989) (Hucitec)

 

Festa brasileira na TV suíça

O estúdio do canal suíço de televisão SF1 em Zurique foi palco de uma animada festa brasileira na estréia do Brasil na Copa da Alemanha 2006. Nem mesmo a fraca atuação da seleção canarinho com um magro placar de 1x0 contra Croácia desanimou os brasileiros que festejaram e cantaram ao som da batucada da Berimbanda.

A iniciativa de trazer a torcida brasileira aos estúdios de TV partiu da própria rede suíça de televisão SF1 em parceria com o CEBRAC (Centro Brasileiro de Ação Cultural) numa amostra do prestígio e da fama da alegria contagiante do brasileiro.

Na sala de recepção dos estúdios da SF1, logo se formou uma espécie de concentração antes do jogo. Muito bate-papo e a confraternização entre amigos e conhecidos que se reencontravam, enquanto os mais empolgados ensaiavam o coro da torcida e esquentavam os tamborins. A torcida brazuca foi recepcionada por um aperitivo regado a suco de laranja, a cerveja tinha que ser comprada no prédio ao lado, uma forma de inibir os ânimos mais exaltados.

Para chegar aos estúdios de TV, a torcida passou por um enorme e comprido corredor de concreto com vigas bem altas. Parecíamos entrar pelos corredores de um estádio, tal era a excitação. Durante todo o jogo, os torcedores, com suas bandeiras em punho, puderam circular livremente pelas dependências do estúdio. Havia telões espalhados por todos os cantos e um bar onde se vendiam cervejas, saladas e sanduíches.

Na pausa do jogo, como havia sido anteriormente combinado, todos os torcedores deviam permanecer sentados na pequena arquibancada em frente às câmeras enquanto os comentaristas destacariam os melhores lances da partida. Ao serem perguntados pelo apresentador do programa de quanto seria a partida muitos apostaram 4x0.

A torcida era regida por um animador de auditório vestido de jardineiro suíço. Ao agitar a bandeirinha do Brasil a torcida se erguia ao som da batucada, quando a bandeirinha da Croácia balançava era a vez dos tímidos, mas nem por isso menos empolgados e felizes croatas.

Ao terminar o jogo, os brasileiros não esconderam sua decepção com o desempenho da seleção, mas nem por isso desanimaram. Se a seleção canarinho ainda não se livrou do peso do favoritismo, a torcida brasileira do CEBRAC, por sua vez, jogou um bolão e fez bonito. Houve até croata que ensaiasse passos de samba.

Marcelo Candido Madeira Formado em Propaganda e Marketing pela UNIP em São Paulo e atualmente trabalha em Zurique como músico, guitarrista, cantor e compositor.